Prefácio Consulado

Foi no Rio de Janeiro, onde estive em serviço no Consulado Geral, que tomei conhecimento da obra intitulada “Desenhos dos Arredores do Rio de Janeiro”, uma série de desenhos das paisagens e da floresta em torno da cidade, pela mão de um certo Benjamin Mary que, aparentemente, além de artista de grande talento, foi o primeiro enviado diplomático belga ao Brasil. Visto que deste livro, editado em 1974, não subsistiam senão uns poucos exemplares, me ocorreu imediatamente a idéia de uma reedição.

As primeiras providências neste sentido não foram muito animadoras: a casa editora não existia mais, a gráfica tampouco, o autor do livro falecera e o Banco Ítalo-Belga, que tinha patrocinado a edição, também não existia mais. Restava assim uma única escolha: fazer uma edição inteiramente nova, contendo uma retrospectiva, a mais completa possível, aprimorada pelas técnicas de reprodução contemporâneas e acompanhada de comentários de especialistas em história e arte.

 O livro que os senhores têm em mãos representa, antes de tudo, uma homenagem ao Barão Paternotte de La Vaillée, Embaixador da Bélgica no Rio de Janeiro na época, a quem coube a primeira iniciativa de valorizar a herança artística de um antecessor fora do comum. No prefácio, ele esboça um retrato muito colorido de Mary e, certamente, me perdoará por tomar a liberdade de citar algumas passagens de seu texto.

“Nomeado ‘Encarregado de Negócios da Bélgica no Brasil’ em 27 de julho de 1832, não pôde, por várias razões, embarcar senão em 6 de dezembro de 1833, em Falmouth, num barco inglês. Depois de fazer escalas nas Canárias, em Olinda e em Salvador, após uma travessia de 64 dias, bastante rápida para aquela época, chegou o navio ao Rio de Janeiro.”

Não pude resistir à tentação de calcular que, se o diplomata enviasse uma mensagem à Bruxelas, ele estaria tranqüilo pelo menos por quatro meses, até que uma eventual resposta lhe chegasse. Pena que este privilégio caiu em desuso nos tempos atuais.

Assim, Mary teria tido muita liberdade para passear e contemplar as maravilhas das paisagens do Rio de Janeiro e da Costa Verde. Mas isso não o impediu de comprovar a eficiência de sua missão diplomática, ao contrário.

“Depois desses fastos protocolares (da apresentação de suas credenciais ao Imperador D. Pedro II), pôde Mary se dedicar ao objeto principal de sua missão: conseguir do Brasil a extensão à Bélgica das disposições do tratado de comércio que celebrara, há cinco anos, com o Reino dos Países Baixos.

No dia 22 de setembro de 1834, pode Mary assinar, com Aureliano de Souza e Oliveira Coutinho, um tratado de navegação e de comércio, de acordo com os desejos dos armadores e negociantes belgas, cujas relações comerciais com o Brasil datavam do princípio do Século XVI.

Esse êxito, invejado durante anos por muitos de seus colegas acreditados junto à Corte, lhe valeu elogios de seu governo, e a rara mercê de dignatário da Ordem do Cruzeiro do Sul.

A extensão de seus conhecimentos e seu notável talento de desenhista muito contribuíram para abrir-lhe as portas dos salões do Rio de Janeiro, neles encantando a todos por sua curiosidade sempre acesa e pelo seu conhecimento da circunvizinhança da cidade.”

As imagens de Mary da flora e da floresta virgem em toda a sua exuberância e exotismo fogem do comum e atestam um extraordinário realismo. O artista consegue transmitir sua fascinação pela beleza mágica dos arredores do Rio e seu respeito pela dimensão espiritual da natureza. Acima do valor artístico e documental, eles evocam uma consciência ecológica premonitória.

Este projeto não poderia ser concluído sem o apoio cúmplice da Solvay do  Brasil, uma referência neste país nos setores químico, farmacêutico e de produtos plásticos e vértice da presença industrial belga no Brasil. Devo expressar meu profundo reconhecimento e gratidão à Empresa, nas pessoas  do Senhor Paulo Schirch, Presidente, do Senhor Jean Pierre Lapage e do Senhor Adhemar Luiz Mendonça Jr., Diretor Administrativo.

Para encerrar, queria dizer também o quanto apreciei a equipe que está na base da realização deste livro e, muito especialmente, o Professor Eddy Stols, incansável pesquisador e verdadeira enciclopédia da história das relações belgo-brasileiras, Daniel de Freitas, da “Linha Aberta Comunicações”, que cuidou da coordenação geral dos trabalhos com grande profissionalismo, e Bernard Jeger, da Câmara de Comércio Belgo-Luxemburguesa e Brasileira em São Paulo, que se encarregou das Relações Públicas para conduzir o empreendimento a este belo resultado. Minhas lembranças do Brasil vão se confundir com os laços de amizade que se teceram entre nós.

 

Michael ARDUI

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